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A Pobreza da Filosofia
Esse título parece indicar menosprezo pela Filosofia, mas não é.Ele foi inspirado na relação da Filosofia com os pensadores gregos, da importância de se repensar a filosofia na sua origem, de como ela foi pensada e constituída. De se reviver o grego. Não como um ator que dá vida a um personagem histórico, mas como alguém que sente o que foi sentido, que resgata o sabor de um momento vivido, como se realmente estivesse o revivendo, e nesse momento percebe que está. Como aquela memória que invade vez por outra nossa mente, trazendo consigo não apenas a cena vivida mas todo um contexto sentido e nos retira do tempo real e nos remete a um tempo psicológico, onde o tempo existe mas não está preso à cronologia, não possui fluxo contínuo, e podemos gozar cada instante, repeti-lo infinitamente até sentirmos saciados deste gozo e ai, retornar ao tempo presente.
Seguindo esta percepção, avançamos no discurso valorizando o pensamento grego que se mistura com o nascimento da Filosofia, não se sabendo quem produziu quem, se os gregos pensaram e descobriram a Filosofia ou se a Filosofia tomou os gregos e os envolveu com sua doce sedução e fecundando-os, permitiu que expressassem pensamentos germinados pela essência da vida.
Mas há neste discurso um toque de picardia, de ironia, pois ao falarmos da "pobreza da Filosofia", nos lembramos imediatamente dos sinônimos: "falta de recursos", "escassez", "penúria", "miséria"; mas também nos remete no mesmo instante para uma natureza mais alta, associando pobreza a "humildade", "simplicidade", "acessibilidade", "beleza em seu estado puro, sem adornos".
Foi absorvendo o sentido destes sinônimos e desejando exaltar a filosofia e sua relação como os gregos, que busquei algo que fosse tão simples e ao mesmo tempo tão complexo, e que me permitisse desenvolver a noção do título escolhido para este texto. Gradativamente fui tomado pelo desejo de expressar na forma conhecida das fábulas, que parecem acessíveis a todos devido a natureza simples das palavras que as constituem e ao mesmo tempo com a complexidade de significados que podem ser extraídos delas.
Sendo assim, vou narrar uma fábula desenvolvida por mim para justificar a utilização da palavra pobreza que batizou este discurso.
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Era uma vez... - porque toda fábula começa assim - um homem que sonhava reunir todos os grandes inventores e descobridores do passado, para que eles pudessem ver o desenvolvimento de seus feitos nos dias atuais.
Um belo dia, quando estava debaixo de uma árvore no alto de uma colina, pensando em como organizaria o grande evento de seu sonho, caso fosse possível realizá-lo, surgiu diante de si uma luz e uma voz que parecia vir dela, falou.
_Querido homem de bem! Tenho observado seu desejo contínuo durante toda sua vida, e percebo ser justo que se realize. Portanto prepare o evento conforme desejas e no momento certo estarão lá todos os grandes homens do passado que você convocar.
A luz se desfez e o homem saiu muito feliz, correndo colina abaixo para realizar o seu sonho.
Para não gerar gozações e ser considerado tolo, preparou um evento chamado: "O Avanço das Ciências", convocando profissionais das mais diversas áreas do conhecimento humano, para apresentarem o avanço de suas ciências em relação ao ponto de partida de seus precursores.
Alugou um grande e belo ginásio, distribuiu convites e no dia marcado estavam lá, todos os representantes das ciências atuais de um lado da quadra, sentados em seus assentos, e do outro lado uma fileira de assentos vazios. O ginásio estava lotado com o público ansioso a espera dos que iriam ocupar os assentos vazios. De repente surgiu uma luz no centro do ginásio e anunciou.
_Conforme prometi a esse homem justo, que sonhou anos a fio com este evento, trago do passado os homens que deram início as ciências aqui representadas.
E num piscar de olhos os assentos estavam ocupados pelas personalidades que deram partida ao que chamamos conhecimento da humanidade.
Com muita alegria no coração, o homem anunciou o início da reunião, solicitando que Tomas Edson fosse ao centro receber os avanços de sua invenção.
O responsável por demonstrar o avanço tecnológico do invento de Edson caminhou até o centro, orgulhoso, radiante de felicidade, empurrando um carrinho com vários objetos.
Edson ficou maravilhado ao ver a demonstração do representante de uma indústria de lâmpadas. Lâmpadas a vapor de sódio, a vapor de mercúrio, a gás néon, lâmpadas de vários formatos, lâmpadas com 10.000 horas de vida útil, geradores de raio laser, etc.
Depois foi a vez de Graham Bell receber de um orgulhoso representante da industria de comunicações, um pequeno aparelho, que podia ser escondido na palma da mão, capaz de falar com pessoas em qualquer parte do mundo. Ligado com satélites, não necessitava de fios e não sofria interferência de montanhas ou obstáculos sólidos. Maravilhado ficou Graham Bell.
Assim passou o tempo, cada convocado recebia com felicidade e orgulho o resultado da evolução de seus feitos.
Até que chegou a vez do último convocado: Sócrates, representando os criadores da filosofia.
Caminhou até o centro do ginásio com um brilho nos olhos, esperando receber do representante da Filosofia moderna, a resposta a todas suas angústias, a explicação sobre a origem, a força motora do universo, a fonte geradora dos pensamentos.
O representante da Filosofia moderna foi até o centro levando consigo um belo livro, caminhava com semblante sereno, porém um pouco triste. Não demonstrava orgulho como todos os outros representantes da modernidade.
Sócrates observou o livro que seu sucessor trazia nas mãos, com a certeza de que ali encontraria todas as respostas às suas questões.
Trocaram cumprimentos.
O Filósofo moderno pegou o microfone sem fio e falou para toda multidão ouvir. Que tecnologia! O som era puro. Equipamentos de ultima geração eliminavam o eco produzido pelas paredes.
Todos esperavam por aquele momento. O que trazia de tão fantástico aquele livro?
_Meu querido Sócrates, - falou o Filósofo para o Filósofo - este livro é um presente do meu tempo para você. Sabemos que você não quis deixar nada escrito, mas precisávamos perpetuar suas palavras e assim reorganizamos o conteúdo de seus discursos a partir dos fragmentos recuperadas de escritos de vários autores de seu tempo, que fizeram citações à suas palavras e narraram passagens de sua vida. Suas palavras foram novamente impressas utilizando a mais alta tecnologia gráfica. Suas folhas são mais resistentes a umidade, ao mofo, até mesmo ao fogo. Desta forma acreditamos que suas palavras sejam preservadas por mais 2.600 anos. A encadernação é belíssima e traz uma foto holográfica de uma estátua sua, resgatada por arqueólogos em escavações na Grécia, sua terra natal.
O público acompanhava o discurso atento, não queria perder uma palavra sequer. O silêncio reinava absoluto rasgado apenas pelas palavras do Filósofo.
_Não conseguimos avançar os seus questionamentos - continuou. Não conseguimos descobrir a fonte geradora do pensamento. Não conseguimos descobrir se o fogo, a terra, o ar e a água, são verdadeiramente os elementos divinos que tudo constróem. Não conseguimos avançar na explicação dos fenômenos, nem provamos se há ou não, vida após a morte.
Permaneceu pensativo alguns segundos e prosseguiu.
_Vocês conseguiram mostrar que os Deuses Olímpicos não existiam, mas nós não conseguimos evitar que se criassem outros Olímpos, porém, agora não são os deuses que se parecem homens, mas são homens que são exaltados como deuses após suas mortes. Eles são cultuados como foram os deuses de seu tempo, são responsáveis pela proteção de cidades, profissões e cada um adota o seu próprio protetor pessoal.
_Não impedimos que se criassem milhares de cultos, que colocam o homem contra o homem, que geram guerras seculares, que geram ódio sem sentido, apenas porque não fomos capazes de entender a origem da vida.
_Muitos Filósofos modernos tentaram vestir suas idéias com palavras bonitas, criaram frases que se eternizaram, mas nenhum foi capaz de avançar em suas questões.
_Você viu que todos os representantes das ciências modernas tiveram do que se orgulhar, do que mostrar, nós Filósofos, só temos suas obras para orgulharmos. Você que chegou prematuramente ao limite da questão humana, não deixando para nós um único passo a mais sequer. Temos que nos contentar em trilhar repetidamente seus passos, na esperança de um dia ultrapassarmos a barreira do limite que o impediu de avançar, mas com a sensação de ser isto impossível.
_Assim entrego suas obras, o começo e o fim da Filosofia, e a certeza de que este livro é eterno e que todos que percorrerem este caminho, sentirão o gozo que você sentiu ao tentar desvendar os véus que escondem a essência da vida, mas que deixam escapar lampejos de visão, que nos prendem a essa busca, como aprisiona os olhares dos espectadores, o vulto do corpo da dançarina, observado quando a luz demonstra os contornos de suas belas formas por traz do fino tecido de suas roupas.
Assim, Sócrates abraçou o seu amigo e o convidou a retirarem-se dali, buscando um lugar tranqüilo para conversarem sobre a eterna busca.
Deixaram o ginásio, e o público em silêncio percebeu que a Filosofia nada tem a ver com as outras ciências, que ela é pobre de recursos, que ela não depende das outras ciências e que não tem o mesmo objetivo que elas.
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Esta fábula constitui uma comparação com as ciências e a Filosofia, mostrando claramente que a Filosofia não tem objetivo comum em relação as outras, que não há um produto a evoluir, que os pensadores gregos chegaram em poucos séculos ao limite dos questionamentos que realmente importa à um filósofo.
Todas as ciências podem mostrar avanços, descobertas, pois possuem alvos. São alvos concretos que podem ser medidos e no fim de cada conquista podem ser estabelecido novas metas. A Filosofia não.
Não importa o quanto avança a ciência da luz, quanto objeto de iluminação, pois a luz, quanto origem de sua existência, continua sendo uma incógnita.
Não importa o quanto avança a ciência da comunicação, quanto ao transmitir o som de nossa voz, pois o discurso continua sendo incomunicável. O pensamento que gera a fala não é o mesmo pensamento que se constrói quando o outro ouve a fala, e não se sabe ainda a origem do pensamento, se é uma fonte única, se é eterna.
Não desejo dizer com isso que o filósofo está alheio ao avanço das ciências, que não se felicita com a tecnologia, ao invés disso quero dizer que o filósofo fica mais assombrado com a inesgotável fonte de consciência, geradora do pensamento, que se torna por isso, mais desconhecida.
O único "instrumento" da Filosofia, "equipamento" único do filósofo, é o pensamento. Esta "ferramenta" desconhecida, que temos que nos aventurar a "utiliza-la" na esperança de compreende-la enquanto a "manuseamos". O pensamento, que é a base do avanço de todas as ciências, mas que os outros cientistas não estão interessados na "ferramenta" que utilizam, mas nos produtos que desenvolve com ela.
Assim o filósofo caminha na direção da origem do pensar e isto o remete a origem da Filosofia, o remete aos gregos. Pensar o que pensaram os gregos parece ser um caminho para se avançar na pesquisa sobre o pensamento, não como os atores repetindo um fato histórico para o público se entreter, mas como um solitário que experimenta o prazer de pensar o pensado correndo o risco de sentir o gozo de pensar o impensado, de atingir o inatingível, a consciência da fonte dos pensamentos.
Guardar os escritos dos pensadores gregos para serem lidos e relidos, não nos garantirá atingir o impensado, mas permitirá dar uma pista para os que desejarem se aventurar a encontrar esse caminho.
Nenhuma ciência contribui para a Filosofia, não há possibilidade, pois possuem Norte diferentes. Ela está só nessa busca infinita de pensar a origem, e desta forma a Filosofia é rica.
Por isso temos que valorizar a riqueza contida na pobreza da Filosofia, pois só ela basta a si própria, só ela é partida de si própria, só ela é final de si própria.
Todas as outras ciências podem se regozijar com seus avanços, mas só os filósofos atingiram a plenitude do limite intransponível, irremediável, do silêncio de não poder mais nada saber.
Sendo assim, viva os Gregos, que são início, meio e fim da Filosofia, que nos deixaram apenas o prazer de repeti-los, o que fazemos realmente com muito prazer.
Paulo Randow
29/09/1998
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